Durante o dia, atrás da noite

COISAS BANAIS
PORQUE ELAS TAMBÉM ESTÃO ESCRITAS NO LIVRO DA VIDA

O DIA

Silêncio.
Dentro de um “apertamento” que mal cabe uma mesa gasta pela marcante passagem do tempo, livros rotos espalhados por todos os cantos como que a lembrar de uma vida cheia de leitura e debates intelectualizados e somatizados pela febre da paixão no calor da discussão sem fim. Hoje, com certeza, desatualizados. Como dizem por aí, nada politicamente correto. Quem hoje se interessa por Marta Harnecker, Mcluhan, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Caio Prado e Fernando Henrique Cardoso, aquele professor querido e combativo. E o futuro da classe operária que, como todos sabiam, chegaria ao paraíso. Ninguém quer saber. Ninguém se interessa.
Garrafas de vinho vazias, outras pela metade como a constatar uma vida de pouco futuro. Vaso com flores semi murchas, contrasta com a alegria da luz clara do sol, que encontrando a janela aberta por todo espaço reluz e incomoda o homem que semi-dorme espalhado, como tudo, no sofá-cama, enfiado no canto do quarto, que, junto ao pequeno banheiro e um intervalo de cozinha, é todo o seu espaço, é o resultado de toda uma vida.
De ressaca com a vida o homem vai acordando ou se desembebedando para o dia. Mil pensamentos passam pela sua cabeça:
“Sim, Eu poderia abrir a porta que dá para dentro de mim mesmo. Mas não! Não adianta dizer dia novo, vida nova. Não é verdade. Cada dia que passa o espírito do derrotismo toma conta de minha alma. Não tenho força para mais nada. Não consigo agir. Não consigo esperar.
Para não nascer, já é tarde; para morrer ainda é cedo demais. Então vou por ai, conjugando o verbo viver no modo aprender.
Juliano, meu amigo, esteve aqui ontem, mais uma vez. Bebemos vinho. Bebemos cerveja.
A euforia da embriaguez - estúpida embriaguez - fez o tempo passar mais rápido. Na verdade é isto que eu quero. É isto o que eu não quero.
Desmaiei assistindo o noticiário da TV e quando acordei encontrei o seguinte bilhete preso nesta garrafa:
– TÁ AÍ! SINTO POR DEIXAR POUCO MAS PRECISEI DE MUITO. ATÉ OUTRA GARRAFA E SAÚDE.
Saúde.... Saúde
Quem pode ter saúde bebendo assim... sem parar???”
Subitamente seu pensar toca a sua realidade:
“Nada de novo no front. Nada acontece nesta vida banal e mal servida. Ninguém morreu. Ninguém nasceu aqui nesta sala nos últimos dias. Nem nos últimos anos. Aliás acho que ninguém nasceu ou morreu aqui. E daí?”
Procura através da janela visualizar o mundo. Aliás viver o mundo. Se sente relativamente forte. Revivivo
“Estou aqui e ali. Ninguém pode me derrubar. Sol na cidade. Alegria nas ruas...”
Não, na verdade ele constata que não é nada disso.
“ Eu, perdido por aqui mesmo, sem definição. Não sei se vou para frente ou para trás ...
...ou se compro uma bicicleta.
Ando dormindo muito pouco e sonhando menos ainda.
Inútil são muitas das poucas coisas que tenho participado. Se no mais das vezes penso que o melhor é deixar para lá e fugir de vez, noutras tenho a certeza que só participando, podemos obter prazer nas coisas que estão a nossa volta.
Mas não me mexo por coisas assim, tão nobres e tão banais ao mesmo tempo. Só quero ver as horas passando.
Há dias que ando bebendo, bebendo e andando com o Juliano, grande... e amigo.
Flutuamos pelo mundo cheios de pensar que somos maiores que ele.. Algumas vezes tenho plena certeza disso.
Juliano é um sonhador desde criancinha
Quando ele era estudante foi da AP - Ação Popular ou como a gente os chamava: os filhinhos da puc. Eles eram de um grupo de cristãos humanistas revolucionários que sonhavam em invadir o prédio da Ciesp na Avenida Paulista. Templo maior do capitalismo tupiniquim.
De uma certa forma ele conseguiu, hoje ele trabalha como chefe de departamento - naquele mesmo prédio ostentoso, junto com muitos outros revolucionários. É assim que terminou nosso grande sonho de mudar o mundo. Aderimos..., por necessidade mas, aderimos
Portanto Sonhar: nunca mais!
Sonhar... Sonhos. eca!
Outro dia ele, este meu amigo Juliano, me contou um sonho estranho
Bom... Sonhar já é muito estranho
O sonho acontecia em um bairro pobre brasileiro, na Itália. A partir daí já podemos ver que sonho não tem pé nem cabeça
Como se trata de Juliano, é claro que a ação do sonho acontece em um bar.
Alguns rapazes numa de violência, agitam grandes bastões. Juliano, bebendo - só prá variar - , entre um gole e outro, fala pro dono do bar.
– O senhor vê estes rapazes? Vão destruir tudo.
O dono do bar, na maior calmaria responde:
– Um pouco de violência sempre é bom.
Depois, ouve-se por todo o bairro pobre brasileiro, na Itália, tiros e quebra-paus
de uma baderna generalizada.
Finalmente Juliano vendo tudo aquilo se entrega ao seu próprio medo . Joga-se por terra, fingindo estar morto.
Um policial traficante da máfia, aponta um grande revolver para a cabeça morta do Juliano.
Rapidinho ele se levanta com as mãos para o ar e se explica:

– IO NO SOI ITALIANO. IO SOI BRASILIANO. ESTRANGEIRO.
Os policiais traficantes da máfia - que agora pareciam ser 4 ou 5 foram embora deixando o estrangeiro entregue a sua própria sorte.
O estrangeiro pega um rumo oposto ao da baderna generalizada e caminha cabeça baixa, encontrando isqueiros e relógios no chão.
Bem, nesta altura do sonho, Juliano resolve acordar e eu fico sem saber se este é o final da história ou se tinha continuação. Ou se foi coisa de bêbado
COISA DE BESTA, com certeza é!
É por isso que eu não sonho .. NUNCA MAIS


Eu aqui, preso neste apartamento com medo de sair. Estou neste útero de cimento de minha mãe solidão. Eu, feto cheio de crises - Meus poucos amigos não estão mais em condições de serem otimistas comigo. Estou em um rodamoinho, indo pro abismo. Infinitamente fundo
Vez ou outra penso numa ressurreição ou asas que possam me fazer voar e salvar as mocinhas de 15 pra 16 anos, peitinhos duros, rosados, chamadas Estelas ou Brigites, Anas ou Danielas, que, normalmente estão a beira destes abismos que a vida nos prepara.
Abro o jornal e vejo que o panorama político nacional se apresenta estável e mesclado às chuvas de verão, o quê, sem dúvidas, não impede o aparecimento de inusitadas chuvas de gafanhotos e siriris ao cair da tarde.
Meu herói tem uma capa de estrelas e tem um cinto de cometas e mesmo os maiores ideólogos sucumbem aos beijos ardentes de uma mulher – qualquer mulher – bonitos cavalos, belas ancas, loiras ou morenas , cabeleiras esvoaçantes ...Como não tenho preguiça, amo também as mulheres feias, desde que sejam agradáveis. São as que nos dão em dobro... Deus é quem sabe.
Pensando bem o compositor popular tem razão: “a gente nunca sabe ao certo o que quer uma mulher e muito menos onde colocar o desejo”.
Eu vi Soninhas e vi Silvinhas, eu vi fogo e vi chuva nos bares e praças da vida, como quem vê uma reedição do passado ou um filme mudo daqueles bem usados, maltratados pelo tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo. Tenho quarenta anos de vida e quero-espero uma morte pacífica e no meu peito, doce e tristemente eufórico, o desejo de ver revelada a face oculta de mim mesmo. Não sei se sonho ou fujo pelo pórtico partido para o infinito de mim mesmo.
Quarentas anos: tantas coisas propostas, nenhuma resolvida.


E vamos vencendo os dias, as horas e os minutos. Vamos subindo por ai. Tive algum sucesso na vida e me considerei no topo do mundo. De uma certa forma eu estava. Mas, depois que a gente chega ao topo do mundo, mesmo o idealizado, é preciso muito cuidado para não cair. Você viaja perdido pelas ruas luminosas da madrugada. Você não sabe onde ir. Não sabe de onde veio. Perde completamente o senso. Esbarra na multidão de seus próprios fantasmas que trafegam na contramão. Eles já não te atrapalham tanto. Nem tem, agora, a importância que um dia teve. E, você tem que prosseguir. Você tem que andar. Você tem que voar. Você tem que votar para poder andar. Você tem que voar para poder amar
Amar...
AH! O AMOR. MUITO INTERESSANTE ESTE TAL DE AMOR.
Já amei muitas mulheres.
Será que amei mesmo?
Os outros, os cidadãos comuns, conseguem amar perdidamente uma única mulher e vivem escravos desta paixão
Conheci o Geraldo, um pobre poeta pobre e louco de amor.
Ele simplesmente amava.
Tudo ia bem até que seu grande amor, a pura, inocente e bela Camila o trocou pelos prazeres de um desqualificado qualquer
Depois disso, como Nabucodonosor, Ele caminhava de quatro patas. Se rolava com seu cachorro na poeira. Vivia somente com seus animais. Se atolava com eles.
Para ele o homem, o ser humano, desaparecia pouco a pouco da criação. E, logo, só vivia com e como os bichos. Ele os contemplava e sentia-se muito bem, como se estivesse com seus irmãos. Só conversava com eles e, quando, por acaso era forçado a falar com gente, paralisava como se estivesse no meio de estranhos. E se indignava dele mesmo e da estupidez de seus semelhantes. UFA!.
Eu também amei muito. Sabe aquele amor que quando a gente pensa, pensa logo nela. Ou será que a gente pensa que ama? Quantas história eu vivi ou inventei por causa de um rabo de saia, travestido de amor
Revi Catarina outro dia, depois de 20 e tantos anos.
Ela, quando era pequena, era do tipo que a gente não apostava uma ficha. Hoje linda mulher.
Papo vai, papo vem acabei dizendo numa confissão extasiante, que ela sempre foi meu grande amor e que eu, secretamente a amei o tempo todo. Desde o grupo escolar. Para dar mais veracidade à história disse que tinha um monte de escritos de amor por ela. Banais é claro. Mas que tinha.
Agora arrumei mais uma preocupação. Escrever 20 anos de poesia para alguém que eu nem olhava e nem sabia se existia ou não. Coisa de louco.
O pior é que me convenci de que eu a amava mesmo.


Com as mulheres, às vezes eu tinha sucesso. As vezes não. Quando eu conseguia um relacionamento mais próximo, logo as desprezava e esquecia o que estava procurando nelas. Mantinha aquele relacionamento só até achar uma outra - qualquer outra. O problema acontecia quando eu deparava com alguém que eu não conseguia nada. Todas traidoras, ignorantes. débeis mentais. ....
Eu ia a loucura.
Porém, na adolescência resolvi o problema. Quando eu era ignorado, treinava minha cabeça para colocar a ingrata em situações embaraçosas.
Minha perfeição foi atingida com a Fátima Mendonça, linda mulher, pessoa fina, estudada. Depois de pensar nela em várias situações degradantes e não conseguir esquecê-la. Cheguei ao extremo: imaginei ela com uma tremenda dor de barriga. Tentando entrar em um banheiro ocupado e depois, já no vaso, fazendo força e se contorcendo de dor, inalando aquele cheiro peculiar que normalmente ocorre nestas situações. Ao se levantar, pensando que havia acabado o ato. Novo ataque que a fez sentar-se rapidamente esparramando merda por todo o canto. Três dias meditando sobre esta situação e um encontro com a dita cuja, resolveu o problema. Nunca vi uma menina tão feia na minha vida e, ainda por cima uma porcona. E eu querendo transar com ela. Vê se pode?

Mas a verdade é que eu não posso mais ser inimigo da minha solidão
Como dizia Anibal Machado “Mas o que eu queria dizer é que pertenço a uma espécie aborrecida que não escolhi. A gente pensa que vive por gosto, mas vive é por obrigação. Tenho pouca dúvida disto”
Já meu melhor amigo me disse que eu sou o exemplo do que ele não quer fazer. De tudo que não se deve fazer. Isto acaba com qualquer cabeça.
(TOCA A CAMPANHIA)
– Deve ser meu amigo Juliano.

A NOITE

É um pouco de sono não faz mal a ninguém, mas o homem não encontra o ponto certo para cair na cama, fechar os olhos e quem sabe, sonhar com tudo o que ele tem direito. Quando consegue, cochila nervosamente mas, o ruído de TV fora do ar não lhe permite altos vôos de imaginação que pudessem resolver todos os nós górdios do mundo. Ele levanta meio confuso e frustrado. Percorre todos os cantos do seu “apertamento”. Anda lentamente prá lá e prá cá, sem rumo ou necessidade ou mesmo algum motivo que pudesse revelar ao mundo. Finalmente se concentra em seu último amor, nos tempos passados e frustados. Tempos de mal entendidos. Sente falta de alguém por perto. Resolve escrever para ela na tentativa de um reencontro:
“Bem sei que tenho me primado pela conversa pouca e fiada. Sei que tenho nos cansado em imaginação, antes mesmo que nós tenhamos feito algo de importância. Como tenho esgotado minha vida, antes que eu tenha tido a oportunidade de vivê-la como acho que mereço.
Mas isto não é minha maior preocupação agora. Eu, um cidadão latino-americano, ordinário, que as vezes vivo de fazer poemas. Você quer que eu seja sério. Se você soubesse como me sinto velho.
Tenho dormido pouco e sonhado menos ainda. Sinto-me nervoso. Só quando o sol me acorda e me deixa preguiçoso eu fico bem, raciocino e jogo o jogo da vida.
O palhaço gargalha enquanto o forte assume as conseqüências. Eu rio e bebo - é preciso mais de um copo de pinga com limão para me deixar feliz - mas continuo procurando a felicidade e espero encontrá-la em alguém - mesmo que seja eu mesmo. É muito difícil. Assim seja. Longe das idéias luminosas que me rodeiam - Geralmente não servem para nada.
Quero é saber do vôo de um pássaro encantado, sem antes mesmo Ter asas para voar.
Poucas dúvidas de que perdi o senso.
Voltar e procurar o equilíbrio entre o meu eu e a sociedade de consumo que nos consome, seria ótimo. Porém o caminho é cheio de truques e labirintos.
De uma maneira mais prática, eu não determino o poder do sol sobre as pessoas e lugares. E não acho justo ser incluído no banco dos devedores. Eu viver não dá direito a ninguém de me julgar.”
Ia terminar com uma declaração de amor mas se assusta com aquele sentimento. Solta a folha no ar. Ela se perde entre sujeiras e tantas outras coisas jogadas. O pensamento porém não o larga:
“Me acostumei a achar que os meus fantasmas usam sapatos bem engraxados, ternos europeus, gravatas da hora, ocupando o espaço das minhas impossibilidades. Nunca pude ser uma pessoa assim por não me achar capaz de manter toda a fantasia que reflete esse aparato estético.
Todas as vezes que me senti traído, foi por essas imagens musculosas, altos e iguais que cruzo na rua. Uma mistura de Bill Gates e Brad Pitti tupiniquins da vida, cujo sorriso carrega também o meu. Usam carros importados, notebooks e vivem marcando hora para reuniões, para sorrir e para viver. Enfim, um homem de sucesso. Esse homem, que reserva todos os outros dias para se preparar para os fins de semanas consagrados ao ócio da praia e belas mulheres. E, porque hoje é Sábado, e eu me sinto terrivelmente só é que ele surge como uma imagem penetrante dentro de mim e me rouba o pouco de paz que, com grande esforço, consigo para os meus dias. Hoje, que nem a lua resolveu sair, me sinto traído.
É a uma figura assim que atribuo a responsabilidade de me manter inquieto e só.
Ouço Fagner, Jards Macalé, Caetano. Sou compreendido. Gosto de lembrar dos filmes de Bergman, cujos personagens foram estuprados pela solidão. Gosto de ir até o fim dessa dor que começou tão miúda que mais parecia um fio de vestido prateado, me cortando a alma. E dos rasgos na alma não sai sangue.
Ressuscito um ódio pelos meninos gordos e corados da minha escola, que usavam roupas brancas e bem passadas. Comiam sanduíche de carne e namoravam todas as menininhas do ginásio: tão higiênicos que até hoje me dão nojo. Com quatorze anos ganham equipamento de som, quinze anos vão pros Estados Unidos, com dezoito ganham carro do ano. Casam com a garota da capa de revista e fazem pós graduação na Europa
Foi com eles que ficaram todos os meus natais e os beijos das professoras. Com essas pessoas, que a vida já traz vencedoras, e que hoje usam belas gravatas para esconderem um peito que é incapaz de sentir o mal que me fazem agora.
Um Sábado que não passa nem com música. Fiz de tudo. Até chorei.
Lembro de ser uma pessoa nada especial e de passar a vida sem ser notado. Aprendi muito com essa invisibilidade. Há sempre alguém que não consigo tocar. São elas que por trás do que eu mais quero e em diferentes épocas da minha vida, ocupam um lugar em mim e me fazem descobrir outros jeitos de fazer as coisas.
Vou aprendendo devagarinho: o que eu não tenho é porque eu não sei direito. Fico imaginando como as almas das histórias da minha vó, até hoje me metem medo,
Sou que nem bicho do mato, não gosto de ser surpreendido, mas posso estar enganado e seja alguém melhor que eu quem hoje apronta esse vazio. Vou vencer meus medos e aprender a amar alguém que não use sandálias de salto, não goste de sábados - pode ser até feia. Ou tudo isso, sem ser a menina de farda engomada e lancheira cheia, que tanto atazanou minha inocência.
A verdade é que me sinto insuficiente e mal amado. Peço desculpas ao meu coração por ser capaz de tanta dor. E ofereço um trago a mulher que merece um Sábado....
.... hoje quem paga sou eu.”
Resta-lhe o conforto dos primeiros raios de um novo dia. Ele sobreviveu mais uma noite. Vai chegando o sono, lentamente. Ele ainda exclama quase dormindo:
– Meu segredo é que sou um rapaz esforçado.
FIM. Outubro de 99/revista em Abril 2000